Disseram-me que a saudade é uma forma de amar.
E se realmente é, eu continuo a amar quem eu não quero.
E por falar em saudade e de datas, faltam poucas horas para voltar a reviver tudo.
Reviver esse "relato da saudade".
Reviver a terceira parte de uma saga, que só peço a Deus que tenha fim.
Que seja a terceira e a última parte deste filme, deste pesadelo que muito me mudou.
Desde há ano e meio para cá, nunca mais fui o mesmo.
E creio que nunca mais vou ser.
Os mais próximos, os que me conheceram de verdade, percebem isso perfeitamente.
Pelo excesso de maturidade nas conversas, de quem antes era um pouco imaturo, despreocupado e verdadeiro amante da vida.
Pelo olhar que muitas vezes se baixa, quando há temas que nos são tão sensíveis, e que fazem o coração palpitar de uma forma diferente.
Pelo sorriso que sai de uma boca, mas que é um sorriso diferente, de alguém que tomou o sofrimento, e que apenas sorri, sem ter conta que os outros se apercebem que este sorriso, não é o mesmo, antes de toda esta saga, quando tudo era loucura, nem tudo felicidade, mas tudo liberdade.
Por muito que eu esteja livre há praticamente ano e meio, a realidade é que ainda me vou aprisionando.
A realidade é que por mais chutos que dê no esférico, a esferográfica da vida não altera o meu vaticinio para os sentimentos mais intensos e felizes que alguma vez vivi.
Mesmo que tudo mude de hoje para amanhã, de amanhã para depois de amanhã.
A rotina não existe, quando estamos constantemente a abrir e a fechar a porta de um congelador.
O congelador que não sabe bem o que faz, porque não consegue congelar, mas também não consegue descongelar.
E isto, é o que vou sentindo.
Congelo e descongelo frequentemente os meus sentimentos.
Se pudesse escolher, preferia não sentir, e congelar tudo, ao ponto de quando me espetassem uma faca no corpo, sair gelo em vez de sangue.
Aí sim, teria certeza que não sentiria.
Mas se o gelo queima, com tanto gelo, o frio torna-se quente, e tudo volta novamente a descongelar em quem sente.
A lágrima que se encontrava congelada, volta a escorrer.
A ansiedade de quem tem medo do futuro, regressa, colocando-nos ofegantes de tristeza.
As cicatrizes de um corpo, e de uma alma carregada de mágoa, sem a sentir ao mesmo tempo, voltam a doer, quando se passa um dedo por cima dessas cicatrizes físicas, e um pensamento ou sentimento de saudade por essas cicatrizes da alma.
O futuro risonho que tanto queremos, e que tanto nos esforçamos para acreditar que o vamos ter, acaba por nos fazer baixar a cabeça, e conformarmo-nos com a verdadeira realidade em que vivemos, quando olhamos para o tempo, e nos apercebemos o tempo que já passou da última vez que sentimos a verdadeira felicidade.
Da última vez que choramos de alegria.
Da última vez que sorrimos e beijamos com os olhos.
Da última vez que nos arrepiámos com um simples toque.
Da última vez que a boca sentiu prazer de um sentimento de amor, ficando ela a pedir por mais incessantemente.
Da última vez que o coração se encheu tanto, e que palpitava com toda a intensidade, devido à felicidade que ele sentia.
Tentar acreditar em algo que já vivemos, que nos esforçámos tanto para conquistar, e que de seguida perdemos, faz nos questionar constantemente sobre a verdadeira política da vida, se é que existe alguma política da vida.
Mas ao mesmo tempo, este foi o caminho que a vida escolheu para mim.
Sem ter muito voto na matéria, ou poder de decisão.
Gostava de poder ter algum poder de decisão, porque se tivesse...
Não deixaria com toda a certeza tudo no caos em que se encontra há tanto e tanto tempo.
Os sonhos continuam a ser mais pequenos a cada dia que passa.
Sobretudo quando não vivemos num conto de fadas.
A mim continua a restar-me pegar num terço diariamente, como o faço, acreditando que apenas o divino pode alterar o rumo de tudo aquilo que tenho vivido.
Porque se a esperança é nula, ao menos que a fé me continue a manter firme, por estas provações de alguém que já se "chateia" de ser rato de laboratório.
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