sábado, 25 de setembro de 2021

Não chega

Às vezes há coisas que não chegam.
Esforços que não chegam.
Sonhos que não chegam.
E o que não chega, umas vezes não chega porque o tempo não nos traz, outras vezes porque por muito esforço que haja para conquistar algo, simplesmente é insuficiente, e não chega.
O sentimento de não chegar, é como estarmos numa prisão, com vontade de nos soltarmos.
Fazemos força para nos desacorrentar daquilo que nos acorrenta, mas não chega.
Tentamos manter a cabeça erguida, mas não chega.
O estado sentimental de "não chega", transporta-nos para um estado de insuficiência, preferindo que a nossa única insuficiência, fosse antes uma insuficiência cardíaca, para mais tarde ou mais cedo batermos a bota.
Mas nem isso chega.
Cruzamos os braços, quando já os esticamos durante demasiado tempo.
A mão que abre a porta, é a mesma mão que se magoa, quando a citada porta nos entala.
A vida não chega.
Nada chega, quando aquilo que mais desejamos não chega.
Ou quando aquilo que um dia desejámos chegou, e partiu.
Não chega viver numa falsa felicidade.
Fingir que está tudo bem, e por outro lado, fora das vistas de todos, ou à vista do mundo, matar mais uma garrafa.
Mas apenas uma garrafa, não chega.
Não chega colocar sentimento em tudo.
O sentimento que coloco na poesia, não chega para avançar com a produção de um livro.
O sentimento que coloco num relato de futebol, não chega para alcançar uma rádio nacional ou quiçá uma estação televisiva.
O sentimento que coloco no amor, não chega, porque o amor não chega, mesmo que um dia já tenha chegado.
E mesmo que um dia chegue, o sentimento que outrora coloquei, não vai chegar, porque o medo vai sempre falar mais alto.
A fobia de não chegar, vai me fazer recordar da única vez em que houve um esforço para chegar, mas mesmo assim não chegou.
Que não chegue ao que mais temo.
Mas ao mesmo tempo, que um dia consiga chegar, àquilo que atualmente não chego.

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Gelo

Após ter sido um mar escaldante de sentimentos, virei um congelador.
Congelei.
Não consigo sentir nada.
Nem a felicidade, nem a tristeza, nem a dor, nem a mágoa...
Simplesmente os sentimentos desapareceram.
Creio que quando passei da vez anterior por algo parecido, afundei devido ao choque térmico entre esse mar escaldante que secou, e o gelo.
Mas atualmente, apenas existe gelo.
Um gelo que queima, sem me queimar.
Que congela não só os sentimentos, como todas as expetativas, todas as ideias, e todos os sonhos.
Mesmo para além do gelo que me tornei, a cabeça continua sempre virada para baixo, a cada passo que dou.
Creio que o gelo me demonstra as constantes derrotas que tenho, e faz me conformar de que sou e serei sempre um derrotado.
Há quem nasça para vencer, e há quem nasça para ser derrotado, para ensinar aos que vencem que nem tudo é fácil.
E a vida decidiu colocar-me no segundo grupo.
No fundo, quem nasce para vencer é protagonista na vida, quem nasce para ser derrotado, é um mero figurante.
Feliz ou infelizmente, já me conformei com a ideia de que ser protagonista na vida, é um papel que não tenho qualidade iminente para representar.
Por isso, prefiro gelar mais uma vez, à procura de motivos para ultrapassar este gelo, descongelar, e tentar ganhar motivos, que neste momento são inexistentes, para tentar seguir um caminho de nada.
Dizem que às vezes sou duro demais comigo mesmo.
Eu não sou tão duro comigo mesmo, como outras pessoas já foram comigo.
Na realidade, eu tenho motivos para ser duro comigo mesmo.
Mas os outros não, e mesmo assim o são.
Não é o ser duro, é o saber ser justo, é o saber ser realista, e é o saber colocar os pontos nos "i's" onde eles devem ser colocados.
E no fundo, é pegar num balde de gelo, e jogar onde tudo é incerto.
Num gelo que já não me gela.
Num gelo que não me queima, e nem sinto.
E num gelo, que aconteça o que acontecer, já não me irá gelar, como me gelou noutrora.

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Estrela do Mar

"Salve, Estrela do Mar,
Mãe do Verbo de Deus,
Virgem pura entre as virgens,
Feliz porta do Céu."
A estrela do mar que permanece no meio das águas frias e quentes (se bem que existem em maior número nas águas quentes).
A estrela do mar que nos pode ensinar tanto.
Que mesmo depois de perdermos algo que nos é tão importante, que há sempre maneira de nos revanescermos.
No caso das estrelas do mar, a perda de um braço, por exemplo, não é uma perda definitiva, pois passado algum tempo, volta a crescer outro braço, no sítio da perda.
As estrelas do mar ensinam-nos que mesmo depois de perdermos algo tão importante para a nossa condição humana, que é sempre possível olharmos em frente, e seguirmos o caminho.
Como se os nossos olhos também não tivessem essa água salgada do mar.
Como que por mais bonita que seja uma estrela do mar, elas acabam por ser também extremamente fortes, ensinando a nós humanos, que todos somos bonitos à nossa maneira, mas ao mesmo tempo, que todos temos uma força incrível dentro de nós.
As estrelas do mar que são dos animais mais independentes que existem.
Nem para dar continuidade à sua espécie, necessitam de outrém.
As estrelas do mar também nos ensinam, que nos dias de hoje, devemos sempre ser os mais independentes possíveis.
Vivemos num mundo cada vez menos amistoso, e cada vez mais orgulhoso, egoísta e invejoso.
Portanto, a melhor decisão nos dias que hoje correm, acaba por ser olharmos para nós mesmos.
Para nós, e para esta estrela do mar, que não nos abandona, passemos nós pelos momentos mais difíceis que nos surgirem.
As estrelas do mar que também nos ensinam que nem sempre um caminho é fácil.
Que mesmo no meio dos tubarões e das orcas desta vida, que devemos sempre caminhar, seja dando um passo de cada vez na luta para alcançarmos o nosso melhor (no caso das estrelas do mar, elas caminham através do sistema ambulacral), seja fugindo dos animais frisados anteriormente (que são os sofrimentos e as tristezas humanas).
À estrela do mar que nos ensina.
À estrela do mar que não tem coração.
E às vezes, também dava jeito a nós humanos não termos coração, porque é o coração que nos faz ter inúmeros sentimentos, muitas vezes menos positivos.
Que a estrela do mar me guie, nestas ondas da vida.
E que a estrela do mar me permita cantar sempre:
"Salve, Salve Estrela do Mar
Salve, Mãe do Verbo de Deus."

Carta aberta a Nossa Senhora

No meio das dores e dos sofrimentos mundanos, a ouvir canções gregorianas de Fátima, surge nos meus olhos, a tua imagem mãezinha do céu.
E aí, as lágrimas soltam-se de dentro dos meus olhos.
Custa-me todo este tempo de provação na minha vida.
Falta-me o ar.
Engulo mais uma vez a seco.
O teu filho está sofrendo muito mãezinha.
E só consigo confiar em ti, e no pai.
Vós sois a minha única esperança, a minha única fé, neste planeta que cada vez mais se equipara a um purgatório.
É no meio desta solidão cada vez mais cruel para mim, que eu me entrego nos vossos braços, mesmo sabendo que vós sois a minha única companhia que tenho.
Não gosto de questionar a Deus.
Não gosto.
Mas questiono minha mãe, quando é que isto tudo vai passar?
Quando é que tudo vai dar certo para mim?
Quando é que vou conseguir realizar os sonhos que tenho, se é que vou conseguir realizar algum desses meus sonhos principais?
Quando eu julgava que tudo ia dar certo uma vez na minha vida, surge mais uma vez, mais uma desilusão tão grande, que me aperta o peito.
Confesso minha mãezinha do céu, que quando me pus nisto, sabia que me sujeitaria a isto.
Mas quando as coisas começaram a avançar, e tudo a correr tão bem, óbvio que idealizei, óbvio que pensei que desta vez tudo iria ser diferente.
Mas não foi...
E muito pelo contrário.
Fui magoado, como creio que nunca fui.
Nunca ninguém que eu gostei tanto, me tratou tanto como merda, de uma vez só.
Como se eu fosse um objeto.
Como se eu fosse um brinquedo.
E aí pergunto minha mãezinha do céu, o que eu sou afinal?
Porque já nem eu sei o que sou.
Será que sou um brinquedo?
Um objeto?
Antes fosse, porque aí seria inanimado, não teria sentimentos, não sofreria, e nem passaria por estes momentos de provação tão grandes, que parece que me deram a cruz de Cristo, para eu carregar até ao meu próprio calvário.
E olhando para esses Mistérios Dolorosos que o teu filho Jesus passou antes da crucificação, esta agonia que me invade a alma, é bastante parecida à agonia que Jesus teve, após a última ceia.
Sobretudo porque é a orar que me sinto única e exclusivamente bem, nesta agonia, mesmo sem me sentir.
Não soo sangue como o teu filho Jesus, mas as lágrimas que me vão escorrendo no rosto, são lágrimas de dor.
"Pai, se é do teu agrado, afasta de mim este cálice; contudo não se faça a minha vontade, mas sim a tua."
Estas palavras foram do teu filho Jesus, mas neste momento enorme de provação que passo, entrego as palavras do teu filho, nas intenções que guardo dentro do meu coração.
A flagelação do teu filho Jesus, é comparável às inúmeras flagelações que a vida me vai trazendo.
Como se uma única flagelação já não fosse por si suficiente.
Mas não é.
E então, é aí que tudo se desmonta, se desmembrana, e perde o seu valor.
A coroação de espinhos do teu filho Jesus, simboliza a dor da vergonha que sinto, ao ver a forma que a vida vai me fazendo avançar.
Na maioria das vezes sem rumo, e caminhando várias vezes solitariamente.
A minha vida parece aquela multidão que gritou, a pedir para que o teu filho Jesus fosse crucificado, minha mãezinha do céu.
Mesmo no meio daquela humildade que sempre lhe caraterizou.
E estes sofrimentos intensos que me abalam, compara-se a Barrabás, que foi solto, tal como estes sofrimentos se soltam neste preciso momento em mim.
As trevas que taparam a Terra durante aquelas 3 horas, simbolizam a escuridão que a minha vida leva.
Como se não preferisse que estas trevas na minha vida, durassem apenas 3 horas...
A caminhada até ao meu calvário ainda é longa.
Sei que vou sofrer muito outra vez.
Sei que vou cair, como o teu filho Jesus caiu a carregar aquela cruz tão pesada.
Porque a vida que eu tenho, tende sempre a querer-me crucificar em tudo.
E o que eu te peço minha mãezinha do céu?
Que há semelhança do que fizeste com o teu filho Jesus, que não me abandones neste caminho até ao Calvário.
Eu sei que te vai custar veres me a caminhar até lá mãe.
Mas também sei que tu sabes, que isto vai ser o melhor para mim.
O teu filho Jesus salvou o mundo, ressuscitando.
E eu vou salvar-me a mim mesmo.
Vou salvar-me destas dores.
Mas primeiro, eu sei que tal como o teu filho Jesus, que vou ser crucificado.
No fundo, eu sei que nos próximos meses da minha vida, vou caminhar a caminho do Calvário, ao lado do teu filho Jesus, com a minha cruz às costas.
E aquilo que eu te peço minha mãezinha do céu, é quando eu estiver lá na minha cruz crucificado, que não arredes pé, e que te unas a esta dor, como te uniste à dor do teu filho Jesus, quando ele foi crucificado.
Não é que esta seja uma carta perfeita para a minha mãezinha do céu.
Nunca será.
Mas aquilo que te peço mais que nunca neste momento, é que jamais me abandones, sobretudo neste momento de provação tão intenso, e tão triste.
Porque para enviar esta carta que escrevi para ti, sei que a morada de Deus, está no terço que tenho ao meu pescoço.

domingo, 19 de setembro de 2021

Luz de Cristo

"Lumen Christi! Amen! Aleluia!"
Na língua morta, que é a língua mais viva que conheço, inicio mais um texto.
Para falar sobre uma luz.
Uma luz, que faz com que a iris dos meus olhos, não consiga detetar todas as cores dessa luz.
Na luz de Cristo, que eu vou pedindo a ele, que me guie e ilumine a minha vida.
Neste momento sei que a luz de Cristo ilumina-me, mesmo eu não conseguindo ver essa luz.
Possivelmente verei mais escuridão que iluminação.
Mas a vida é assim mesmo.
Escuridão antecede iluminação.
Iluminação antecede escuridão.
A culpa de haver tanta escuridão e tanto sofrimento neste planeta, é do pecado, e do "tanto faz".
Da perda de valores da família que a nova geração tem, em troca com os novos costumes "esquerdinos" que têm na agenda a destruição da família e desta luz de Cristo.
Mas a luz de Cristo jamais irá faltar, independentemente daquilo que os principais governantes mundiais, queiram fazer no nosso mundo.
A única luz que às vezes falta, é a luz existente no nosso planeta.
Basta haver um corte geral, ou então não pagar a luz ao final do mês.
Mas a luz de Cristo, sei que está bem viva, e não é necessária pagar ao final do mês, como a luz da EDP.
Para pagarmos a luz de Cristo, basta fazermos o que ele nos mandou.
Pegar num terço, rezar sem cessar.
Ir ao domingo a uma das melhores graças que Cristo nos deu (a Eucaristia).
E fazer entre muitas outras coisas, que Cristo nos mandou e nos manda.
Sempre com o foco nele.
Sem perdermos a fé.
Sem perdermos a luz.
Acredito que nós não necessitamos de ver a luz de Cristo.
Basta sentirmos essa mesma luz.
Mesmo que nada faça sentido nas nossas vidas.
Conformar-nos com a vontade de Cristo, é extremamente difícil, mas ao mesmo tempo, acaba por se tornar um dom.
E nos momentos de provação, apenas devemos confiar.
Porque quando estamos na provação, estamos perdidos.
E perdido por um ou por mil, não é igual?
Então confiar em Cristo no meio da provação, não é tão difícil quanto isso.
A questão é que somos seres humanos.
Queremos sinais à força toda, queremos ver.
E Cristo ensinou-nos que felizes são aqueles que acreditam sem ver.
Os sinais e as graças aparecem!
É preciso não perder a fé, nem a luz de Cristo.
O problema, é que a sociedade atual, habituou-se a viver de resultados imediatos.
Não nos conformamos em esperar por nada.
Queremos tudo para ontem.
E às vezes é necessário tempo, para a luz de Cristo atuar nas nossas vidas.
Mas para isso, também temos de deixar que Cristo atue nas nossas vidas, porque muitas vezes, estamos tão focados em graças materiais ou mundanas, que nem deixamos que Cristo atue nas nossas vidas.
Que a luz de Cristo me guie e continue a guiar a minha vida.
Porque "eis a tua igreja".
E como se canta em Fátima:
"A luz de Cristo
Ilumina a terra inteira
Aleluia".

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Olhar

Olhando para todo o lado, questionando-me onde colocar o olhar.
Em frente nada de animador.
Em frente só no passado, quando 2 olhares sorriam entre si, como se um olhar tivesse boca para sorrir, para beijar, ou para dizer um "amo-te".
As recordações desse olhar penetrante, na mente e na alma de alguém, que atualmente não tem um olhar, é extremamente doloroso e violento emocionalmente.
As saudades apertam, sufocam, mas não nos tiram a vida, mesmo que a nossa vida não tenha qualquer significado aparente.
Olhar para trás, acaba por ser a solução mais real, mas depois acabo com um torcicolo físico e mental.
Porque se fosse para olhar para trás, Deus punha-nos olhos na nuca, e não na face.
Mas na realidade, desperdiçamos tempo demasiado nestes torcicolos da vida, que nos fazem encher este mar dos olhos carregados de sal (as lágrimas).
E então sem querer olhar para um dos lados, ainda por cima em tempo de eleições, levanto o meu olhar para cima, implorando, suplicando, mendigando a Deus por paz.
Por paz, por amor, e pela verdadeira felicidade que um dia senti com o coração a palpitar a velocidades, que se houvesse radares sentimentais, o meu coração seria multado por excesso de velocidade sentimental.
Ajoelho-me, tiro o terço do pescoço, e olho para cima, visto não ter nenhum oratório/altar na casa que resido aqui no norte, e rezo, para que tudo mude.
Mas as forças não são ilimitadas.
E nos momentos de provação, quem está mais fragilizado acaba por ser abatido, como se um soldado ferido estivesse na frente de combate de uma guerra.
Não é justo, e mesmo que uma pessoa esteja fisicamente bem, é como se estivesse desarmada.
E é aí que concentro o meu olhar para baixo.
No chão...
Primeiro porque falta-me a coragem para olhar em frente, sabendo de antemão que não há nada de animador para ver.
E depois, porque não quero que as pessoas observem o olhar de um derrotado, que morre sempre na praia, não houvessem praias suficientes para eu morrer na minha terra.
E é longe do olhar dos que mais gosto, dos que mais amo, que o meu olhar se abate.
Mas que este olhar de lágrimas de hoje, seja o mesmo olhar de lágrimas de amanhã.
Mas que o olhar de lágrimas que hoje se entristece, seja o olhar de lágrimas que amanhã se alegrará.

Cortar

Suficiente para me magoar, insuficiente para cortar.
E quando falo em cortar, não falo apenas em cortar com o pessimismo e o negativismo que me rodeia.
Porque esses sentimentos parece que vieram para permanecer durante muito tempo...
Mas corto-me todos os dias...
Corto-me cada vez que ligo o telemóvel a cada manhã, e percebo que não há nada, nem ninguém.
Corto-me cada vez que saio de casa de noite, ao frio, à humidade, ao nevoeiro, à chuva, na minha solidão, em direção à estação de Metro, para apanhar o transporte para o trabalho.
Corto-me cada vez que tenho que andar 2 quilómetros a pé à noite, pelo meio da linha de Metro, e de seguida pelo meio do mato, para chegar ao meu local de trabalho.
Corto-me cada vez que o meu chefe me chantageia, obrigando-me praticamente a deixar a empresa onde trabalho.
Bebo um café, e corto-me mais uma vez.
Corto o sono que rodeia depois de tanto percorrer até chegar ao destino.
Destino esse que é um destino diário.
Na realidade, o único destino que vou tendo, é o destino da rotina.
Porque o destino da vida, não tenho.
Sem objetivos, sem sonhos, sem nada...
As pastas de futuro, como muitas vezes me falam, não se conseguem preencher, quando a vida nos quer ver em baixo à força toda, e que por muito que nós lutemos, a luta não é suficiente.
Vou vivendo um dia de cada vez.
Uns dias melhores, outros porreiros, outros piores, e outros em que mais vale não sairmos de casa.
E nesses dias em que mais vale não sair de casa, adivinhem, corto-me mais uma vez.
Batendo crânio em situações que me incomodam, mas que olhando racionalmente para esta novela venezuelana (a expressão novela venezuelana tem uma explicação engraçada, que prefiro guardar para mim), é gastar e desgastar forças e energias em situações desnecessárias, independentemente de mexerem muito connosco.
E aí, corto o coração, corto os sentimentos, corto os pulsos sem os cortar, e sangro.
Cada desgosto, é mais um hematoma, mais uma chaga, mais sangue a escorrer.
O sangue que se alia às lágrimas.
Ambos significam dor.
Enquanto o sangue está ligada à dor física, as lágrimas estão ligadas à dor psicológica ou espiritual.
E aí, perco as forças para cortar...
Para cortar com o que me magoa.
Para cortar com as dores.
Para cortar com o sangue e com as lágrimas.
Para cortar com toda a ansiedade e aflição que me impede de respirar, sem impedir.
Para cortar com o que está distante física, psicológica e sentimentalmente de mim.
Essa é uma tarefa que deveria ser para ontem.
Mas preciso de um empurrão da vida.
Para que corte com tudo o que não me beneficia.
Porque cada corte que eu faço, não é suficiente para cortar com o que me prejudica.

terça-feira, 14 de setembro de 2021

Mistérios Dolorosos

A "minha" Igreja Católica, recita todas as terças e sextas feiras, os Mistérios Dolorosos da oração do Rosário.
E eu recito os meus Mistérios Dolorosos todos os dias...
A cada pestanejar, a cada inspirar, a cada gota de suor, a cada lágrima...
Sempre que os meus olhos fecham, recordo-me do melhor de mim.
Dizem-me que não devemos olhar para trás, e eu sei.
Mas quando olhamos em frente, e não vemos nada de animador, forçosamente acabamos por olhar para trás.
Olhando para aqueles olhares verdadeiros, para aqueles sorrisos puros, para aquela paisagem incrível e indescritível...
Recordando o toque que me arrepiava, provando o sabor que me seduzia, e sentindo aquilo que nunca senti, e que jamais irei sentir por mais alguém.
Neste último ano escrevi 2 relatos da saudade.
Mas se tivesse que escrever mais 3 ou 4, para recordar o melhor de mim, voltaria a escrever, sempre com sentimentos distintos e idênticos ao mesmo tempo.
E é aí que todos estes Mistérios que guardo dentro de mim, acabam por ser tão Dolorosos.
Simplesmente, porque por muito que queiramos fazer algo, sabemos que nada vai ser suficiente.
Por muito que a saudade seja intensa, sei que não está ao meu alcance viajar no tempo.
E então viajo na memória que guardo.
Na memória do melhor de mim, na memória do que fui, e na memória e na realidade do que sou.
O problema serei sempre eu.
O cansaço de tanto lutar sem um único resultado final, faz me baixar os braços.
Faz me entender, por mais mentira que seja, que jamais vou voltar a ser feliz como fui.
De que nada funciona na minha vida.
De que estou destinado a perder todos os sonhos que tinha, e a viver sem qualquer tipo de rumo.
E por incrível que pareça, isso está mais perto de acontecer, do que aquilo que possa parecer.
E por último, porque todos estes meus Mistérios Dolorosos, duram há tempo demais.
Já não falo em dias, nem em semanas, nem em meses...
E tudo vai se repetindo.
Seja a rotina, seja esses Mistérios Dolorosos.
A minha banda favorita, dizia na música "O que foi não volta a ser", que "pode vir algo melhor, embora sempre pareça que o pior está por vir".
Mas quando o melhor não chega, e atrás do pior vem ainda mais pior, e mais pior...
Não há como ter forças para levantar de vez.
Que estes Mistérios Dolorosos que vou vivendo, não me afundem os sonhos que ainda tenho.
E que como nos Mistérios Dolorosos que a Igreja Católica reza, que venha de seguida os Mistérios Gloriosos na minha vida.
Para que a cada Mistério, cada Pai Nosso, cada 10 Avé-Marias, e cada Glória ao Pai que rezo, possa fazer este pedido em latim:
"Sancta Maria, ora pro nobis."

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Heróis do Mar

Aos heróis do mar.
Aos heróis da nação.
Aos heróis do mar, que apenas são reconhecidos quando chegam a terra.
No mar tenebroso.
A enfrentar animais e monstros marinhos.
A vida que nos coloca tantos animais e monstros marinhos no nosso caminho.
Os monstros que representam os nossos medos.
Os animais que representam os nossos receios.
Como se já não existissem no mar, animais e monstros suficientes, para já termos que os enfrentar em terra.
E se somos portugueses, estamos obrigados a nunca baixar os braços, seja em que circunstância for.
Não é que aqueles marinheiros de há uns séculos atrás, tenham tido medo do Adamastor.
Mas são os Adamastores desta vida, que nos ensinam a sermos mais firmes em relação a tudo o que enfrentamos.
E não é por nada que quando enfrentamos problemas na vida, costuma-se dizer na minha terra que "está o mar feito num cão".
Do mar em que não existe meio termo.
Ora está tudo calmo, ora está tudo agitado.
A vida também é assim, e deve ser vivida como tal.
Sem meios termos.
Mesmo que os Adamastores desta vida nos queiram "engolir" vivos.
Mesmo que na agitação do mar, e nas suas tempestades, tenhamos que remar muitas vezes contra a corrente.
Mesmo que quando toda essa agitação acabe, que demore muito tempo para ouvir alguém a gritar "terra à vista".
E é na terra que percebemos a incoerência e a falta de meios-termos do mar.
É nessas tempestades que percebemos a verdadeira profundidade do mar.
Não é que eu seja pescador, para além de ser de terra de pescadores, e ter familiares pescadores.
Mas são os pescadores que atualmente melhor conhecem o mar.
Eles, e os marinheiros portugueses, que descobriram este mundo, seja na calmaria de lidar com vários povos distintos do nosso, seja nessa agitação marítima, por intermédio dessas tempestades que frisei.
Porque ainda há muito para descobrir.
Porque a nós portugueses, não são os Adamastores desta vida que nos intimidam, mas sim nós que intimidamos esses Adamastores.
E porque existem muitos heróis do mar em terra, mesmo que esses heróis nunca tenham tido a experiência de navegar no mar, mas apenas a experiência de navegar nestas tempestades da vida.

sábado, 4 de setembro de 2021

Meu anjo da guarda

"Oh meu anjo da guarda
Faz me voltar a sonhar
Faz me ser astronauta
E voar".
Na voz de dois ícones da música portuguesa (Tim e Rui Veloso), surge a música "Voar".
Que descreve muito daquilo que vou sentindo.
Ao meu anjo da guarda que vou pedindo que me guarde.
Ao meu anjo da guarda que vou pedindo que não me faça baixar os braços, mesmo quando a vida nos tenta empurrar com todas as forças para o lado oposto.
Mas afinal qual é o lado oposto?
Para quem não sabe o caminho para chegar à verdadeira felicidade, só me resta o meu anjo da guarda para ser o meu GPS e o meu guia, nesta viagem atribulada e com muitos poços de ar.
Uma vida sem sentido, seja no que ela nos traz, seja na direção da mesma.
Ao meu anjo da guarda que me traga definitivamente os "Olhos de Deus" (referência a uma música da fadista Ana Moura).
Os "meus" Olhos de Deus, atualmente é a minha irmã.
Que continua tão longe, mas tão perto de mim no coração.
É graças a ela que o sentido da vida, ainda tem alguma direção, mesmo não tendo nenhuma.
Mas depois lembro-me de outros olhos de Deus, que apareceram e desapareceram, deixando-me a vaguear e a questionar tantos porquês sem resposta.
Ao meu anjo da guarda, que questiono para as perguntas que tendem a continuar sem resposta, mas que espero um dia conseguir tê-las.
Seja com resultados de rezar sem cessar, seja com acontecimentos numa vida que não é boa, mesmo sendo, em comparação com outras pessoas da humanidade.
Humanidade esta que devia restruturar melhor as verdadeiras prioridades de uma vida.
Troca-se trabalho por dinheiro fácil e sujo, amor por prazer, rezar por espiritistas, o bem pelo mal.
Humanidade triste que faz sofrer quem só quer ser feliz.
Humanidade que continua sem acreditar no nosso anjo da guarda.
Ao anjo da guarda que me protege, mas que juntamente com Deus e os seus olhos sobre este planeta, que nos faz passar por tantas provações.
As provações custam, mas fazem-nos crescer.
Um pai não dá sempre as prendas que um filho pede.
Às vezes não dá, outras vezes dá com o tempo, e outras vezes dá-nos praticamente no imediato.
Numa humanidade longe do caminho certo, empurrando quem está no caminho certo para o errado.
Às dores silenciosas que nos afetam e magoam.
Numa humanidade que cada vez mais é egoísta, e que menos sabe viver em humanidade.
E é por a humanidade não saber viver em humanidade, que cada vez mais é cada um por si.
E sendo cada um por si, acabamos por nos afastar muitas vezes do único apoio, que muitas vezes não é físico.
A Deus que tem os olhos sobre este planeta, mesmo que nós não o vejamos.
A Deus que tem os ouvidos sobre este planeta, mesmo que nós não o ouçamos.
A Deus que nos toca, sem tocar.
E ao meu anjo da guarda, que vai fazer me voltar a sonhar e a voar, mesmo que a vida terrena mostre que não.
Porque os melhores planos de uma vida, estão em que é omnipresente, presenteando as nossas vidas com presentes da sua presença.

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Voltar

Cada vez que regresso...
Cada vez que venho...
Cada vez que volto...
É o sentimento de um estado completo.
À beira do meu Rio Arade, escrevendo mais um texto, mais uma reflexão de muitas.
O Arade que me inspira e expira.
O beijo da mãe, as traquinices da mana, as zangas do pai...
Acho que nunca valorizamos verdadeiramente as coisas enquanto temos.
É um defeito do ser humano.
Chorar, por tudo e por nada.
Depois ligamos a televisão nas notícias, e percebemos que somos uns Senhores Priveligiados, e ainda nos dignamos a chorar, por não termos o que mais desejamos.
E sabemos que o fruto proibido, é sempre o mais apetecido.
Somos ingratos.
Ingratos por vivermos uma boa vida, e mesmo assim lamentarmo-nos pelo que não temos.
E é curioso que lamentamos mais aquilo que não temos, do que valorizamos aquilo que temos.
E depois desço mais uma vez...
Faço os ingratos 600 quilómetros, e volto.
Volto a estar com quem amo verdadeiramente, e a quem deveria entregar-me verdadeiramente, porque são pessoas que por mais que me possam desiludir, ou que eu possa desiludir, são pessoas que sei que jamais me abandonarão.
Que fazem tudo por mim.
A família é tão importante para nós mesmos, quando queremos estacionar e estabilizar.
E sentirmos a ausência dos nossos únicos afetos...
É um sentimento extremamente negativo.
E pode parecer que não, mas este sentimento extremamente negativo, assola-me há praticamente 3 anos.
Por desejar sempre o que não tenho por perto, ou que não posso ter.
Voltar à minha terra é sempre medicinal.
O meu Algarve foi a melhor herança que me deram e deixaram.
Porque o paraíso onde muitos passam férias, é o paraíso de onde eu vim, e de onde eu sou, dizendo-o de peito cheio, sempre orgulhosamente.
E todo o sentimento deste estado completo que falei acima, acaba quando volto novamente a "galgar" 600 quilómetros para norte.
Porque sonho com o dia em que volte, sem uma ida.
E porque no fundo eu sei, que um dia voltar, vai ser a melhor decisão que tomarei para a minha vida.

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Conformação

Na conformação que resido, sem residir, tentando me conformar.
A cada segundo, minuto, hora, dia, semana, mês, ano que passa.
Um estado de conformidade que não vem de mim, mas de lá de cima.
Eu tenho alguns amigos que são católicos.
Eles rezam, eles pedem, suplicam, mas agradecem o que têm?
Conformam-se com a vontade de Deus?
As pessoas têm de entender que nós não somos o nosso próprio Deus (a não ser que estejamos a falar de pessoas que sejam ateus).
É difícil conformar-nos com a vontade de Deus, eu sei que é...
Mas também sei que Deus me conhece melhor que eu mesmo.
E ele sabe o que realmente necessito para a minha vida.
Por isso, tento sempre colocar a minha vida nos braços de Deus, e conformar-me com a vontade dele.
Peço, mas agradeço.
Rezo, mas penitencio.
Suplico, mas conformo.
A nossa vontade, às vezes é igual à vontade de Deus, outras vezes não.
E quando mais cedo entendermos isso, melhor conseguimos encarar o caminho que se segue.
Não é por nada que costumo dizer que não faço planos.
Idealizo sim, penso sim, mas os planos?
Prefiro que sejam os planos de Deus.
Mas claro que estou sempre a "torcer" para que o que eu idealizo esteja em total conformidade com os planos de Deus, até para evitar algumas desilusões que possam surgir nas nossas vidas.
Mas continuo a querer e a crer que seja sempre os planos de Deus a guiar a minha vida.
Que seja os planos de Deus que me levem à verdadeira felicidade.
E que seja os planos de Deus que me levem ao verdadeiro sonho, e ao verdadeiro céu.
Porque no fundo aquilo que eu vou pedindo a Deus, é que me conforme com a conformidade dele.