quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Cortar

Suficiente para me magoar, insuficiente para cortar.
E quando falo em cortar, não falo apenas em cortar com o pessimismo e o negativismo que me rodeia.
Porque esses sentimentos parece que vieram para permanecer durante muito tempo...
Mas corto-me todos os dias...
Corto-me cada vez que ligo o telemóvel a cada manhã, e percebo que não há nada, nem ninguém.
Corto-me cada vez que saio de casa de noite, ao frio, à humidade, ao nevoeiro, à chuva, na minha solidão, em direção à estação de Metro, para apanhar o transporte para o trabalho.
Corto-me cada vez que tenho que andar 2 quilómetros a pé à noite, pelo meio da linha de Metro, e de seguida pelo meio do mato, para chegar ao meu local de trabalho.
Corto-me cada vez que o meu chefe me chantageia, obrigando-me praticamente a deixar a empresa onde trabalho.
Bebo um café, e corto-me mais uma vez.
Corto o sono que rodeia depois de tanto percorrer até chegar ao destino.
Destino esse que é um destino diário.
Na realidade, o único destino que vou tendo, é o destino da rotina.
Porque o destino da vida, não tenho.
Sem objetivos, sem sonhos, sem nada...
As pastas de futuro, como muitas vezes me falam, não se conseguem preencher, quando a vida nos quer ver em baixo à força toda, e que por muito que nós lutemos, a luta não é suficiente.
Vou vivendo um dia de cada vez.
Uns dias melhores, outros porreiros, outros piores, e outros em que mais vale não sairmos de casa.
E nesses dias em que mais vale não sair de casa, adivinhem, corto-me mais uma vez.
Batendo crânio em situações que me incomodam, mas que olhando racionalmente para esta novela venezuelana (a expressão novela venezuelana tem uma explicação engraçada, que prefiro guardar para mim), é gastar e desgastar forças e energias em situações desnecessárias, independentemente de mexerem muito connosco.
E aí, corto o coração, corto os sentimentos, corto os pulsos sem os cortar, e sangro.
Cada desgosto, é mais um hematoma, mais uma chaga, mais sangue a escorrer.
O sangue que se alia às lágrimas.
Ambos significam dor.
Enquanto o sangue está ligada à dor física, as lágrimas estão ligadas à dor psicológica ou espiritual.
E aí, perco as forças para cortar...
Para cortar com o que me magoa.
Para cortar com as dores.
Para cortar com o sangue e com as lágrimas.
Para cortar com toda a ansiedade e aflição que me impede de respirar, sem impedir.
Para cortar com o que está distante física, psicológica e sentimentalmente de mim.
Essa é uma tarefa que deveria ser para ontem.
Mas preciso de um empurrão da vida.
Para que corte com tudo o que não me beneficia.
Porque cada corte que eu faço, não é suficiente para cortar com o que me prejudica.

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