terça-feira, 21 de setembro de 2021

Carta aberta a Nossa Senhora

No meio das dores e dos sofrimentos mundanos, a ouvir canções gregorianas de Fátima, surge nos meus olhos, a tua imagem mãezinha do céu.
E aí, as lágrimas soltam-se de dentro dos meus olhos.
Custa-me todo este tempo de provação na minha vida.
Falta-me o ar.
Engulo mais uma vez a seco.
O teu filho está sofrendo muito mãezinha.
E só consigo confiar em ti, e no pai.
Vós sois a minha única esperança, a minha única fé, neste planeta que cada vez mais se equipara a um purgatório.
É no meio desta solidão cada vez mais cruel para mim, que eu me entrego nos vossos braços, mesmo sabendo que vós sois a minha única companhia que tenho.
Não gosto de questionar a Deus.
Não gosto.
Mas questiono minha mãe, quando é que isto tudo vai passar?
Quando é que tudo vai dar certo para mim?
Quando é que vou conseguir realizar os sonhos que tenho, se é que vou conseguir realizar algum desses meus sonhos principais?
Quando eu julgava que tudo ia dar certo uma vez na minha vida, surge mais uma vez, mais uma desilusão tão grande, que me aperta o peito.
Confesso minha mãezinha do céu, que quando me pus nisto, sabia que me sujeitaria a isto.
Mas quando as coisas começaram a avançar, e tudo a correr tão bem, óbvio que idealizei, óbvio que pensei que desta vez tudo iria ser diferente.
Mas não foi...
E muito pelo contrário.
Fui magoado, como creio que nunca fui.
Nunca ninguém que eu gostei tanto, me tratou tanto como merda, de uma vez só.
Como se eu fosse um objeto.
Como se eu fosse um brinquedo.
E aí pergunto minha mãezinha do céu, o que eu sou afinal?
Porque já nem eu sei o que sou.
Será que sou um brinquedo?
Um objeto?
Antes fosse, porque aí seria inanimado, não teria sentimentos, não sofreria, e nem passaria por estes momentos de provação tão grandes, que parece que me deram a cruz de Cristo, para eu carregar até ao meu próprio calvário.
E olhando para esses Mistérios Dolorosos que o teu filho Jesus passou antes da crucificação, esta agonia que me invade a alma, é bastante parecida à agonia que Jesus teve, após a última ceia.
Sobretudo porque é a orar que me sinto única e exclusivamente bem, nesta agonia, mesmo sem me sentir.
Não soo sangue como o teu filho Jesus, mas as lágrimas que me vão escorrendo no rosto, são lágrimas de dor.
"Pai, se é do teu agrado, afasta de mim este cálice; contudo não se faça a minha vontade, mas sim a tua."
Estas palavras foram do teu filho Jesus, mas neste momento enorme de provação que passo, entrego as palavras do teu filho, nas intenções que guardo dentro do meu coração.
A flagelação do teu filho Jesus, é comparável às inúmeras flagelações que a vida me vai trazendo.
Como se uma única flagelação já não fosse por si suficiente.
Mas não é.
E então, é aí que tudo se desmonta, se desmembrana, e perde o seu valor.
A coroação de espinhos do teu filho Jesus, simboliza a dor da vergonha que sinto, ao ver a forma que a vida vai me fazendo avançar.
Na maioria das vezes sem rumo, e caminhando várias vezes solitariamente.
A minha vida parece aquela multidão que gritou, a pedir para que o teu filho Jesus fosse crucificado, minha mãezinha do céu.
Mesmo no meio daquela humildade que sempre lhe caraterizou.
E estes sofrimentos intensos que me abalam, compara-se a Barrabás, que foi solto, tal como estes sofrimentos se soltam neste preciso momento em mim.
As trevas que taparam a Terra durante aquelas 3 horas, simbolizam a escuridão que a minha vida leva.
Como se não preferisse que estas trevas na minha vida, durassem apenas 3 horas...
A caminhada até ao meu calvário ainda é longa.
Sei que vou sofrer muito outra vez.
Sei que vou cair, como o teu filho Jesus caiu a carregar aquela cruz tão pesada.
Porque a vida que eu tenho, tende sempre a querer-me crucificar em tudo.
E o que eu te peço minha mãezinha do céu?
Que há semelhança do que fizeste com o teu filho Jesus, que não me abandones neste caminho até ao Calvário.
Eu sei que te vai custar veres me a caminhar até lá mãe.
Mas também sei que tu sabes, que isto vai ser o melhor para mim.
O teu filho Jesus salvou o mundo, ressuscitando.
E eu vou salvar-me a mim mesmo.
Vou salvar-me destas dores.
Mas primeiro, eu sei que tal como o teu filho Jesus, que vou ser crucificado.
No fundo, eu sei que nos próximos meses da minha vida, vou caminhar a caminho do Calvário, ao lado do teu filho Jesus, com a minha cruz às costas.
E aquilo que eu te peço minha mãezinha do céu, é quando eu estiver lá na minha cruz crucificado, que não arredes pé, e que te unas a esta dor, como te uniste à dor do teu filho Jesus, quando ele foi crucificado.
Não é que esta seja uma carta perfeita para a minha mãezinha do céu.
Nunca será.
Mas aquilo que te peço mais que nunca neste momento, é que jamais me abandones, sobretudo neste momento de provação tão intenso, e tão triste.
Porque para enviar esta carta que escrevi para ti, sei que a morada de Deus, está no terço que tenho ao meu pescoço.

Sem comentários:

Enviar um comentário