quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Gelo

Após ter sido um mar escaldante de sentimentos, virei um congelador.
Congelei.
Não consigo sentir nada.
Nem a felicidade, nem a tristeza, nem a dor, nem a mágoa...
Simplesmente os sentimentos desapareceram.
Creio que quando passei da vez anterior por algo parecido, afundei devido ao choque térmico entre esse mar escaldante que secou, e o gelo.
Mas atualmente, apenas existe gelo.
Um gelo que queima, sem me queimar.
Que congela não só os sentimentos, como todas as expetativas, todas as ideias, e todos os sonhos.
Mesmo para além do gelo que me tornei, a cabeça continua sempre virada para baixo, a cada passo que dou.
Creio que o gelo me demonstra as constantes derrotas que tenho, e faz me conformar de que sou e serei sempre um derrotado.
Há quem nasça para vencer, e há quem nasça para ser derrotado, para ensinar aos que vencem que nem tudo é fácil.
E a vida decidiu colocar-me no segundo grupo.
No fundo, quem nasce para vencer é protagonista na vida, quem nasce para ser derrotado, é um mero figurante.
Feliz ou infelizmente, já me conformei com a ideia de que ser protagonista na vida, é um papel que não tenho qualidade iminente para representar.
Por isso, prefiro gelar mais uma vez, à procura de motivos para ultrapassar este gelo, descongelar, e tentar ganhar motivos, que neste momento são inexistentes, para tentar seguir um caminho de nada.
Dizem que às vezes sou duro demais comigo mesmo.
Eu não sou tão duro comigo mesmo, como outras pessoas já foram comigo.
Na realidade, eu tenho motivos para ser duro comigo mesmo.
Mas os outros não, e mesmo assim o são.
Não é o ser duro, é o saber ser justo, é o saber ser realista, e é o saber colocar os pontos nos "i's" onde eles devem ser colocados.
E no fundo, é pegar num balde de gelo, e jogar onde tudo é incerto.
Num gelo que já não me gela.
Num gelo que não me queima, e nem sinto.
E num gelo, que aconteça o que acontecer, já não me irá gelar, como me gelou noutrora.

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